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Beagá, 28 de fevereiro de 2005 d.C.

 
Menina de Ouro
 
Rocky, o Lutador, de tranças
Por Cajabis Cannabis
cajabis@abacaxiatomico.com.br
 

Tá todo mundo louco. Oba! Tá todo mundo louco. Oba!!! Ou então o maluco sou eu. Porque eu não vi nada, nada de excepcional em Menina de Ouro, o mais recente queridinho da crítica e que vem emocionando a todo mundo que o assiste - todo mundo menos eu.

Todos os críticos do planeta (ou 98,75% deles) já classificaram o filme como "um clássico", "uma obra-prima", o supra-sumo, the real thing. Os cinéfilos saem da sala de projeção às lágrimas. Um colunista sabichão da Folha escreveu que "só os idiotas conseguem se recobrar em menos de uma semana do choque aplicado por Eastwood". Então, sou uma besta quadrada, o protótipo perfeito do imbecil. Saí do cinema como entrei, olhando pro lado pra me dirigir ao ponto de ônibus como faço normalmente.

Mas vamos ao filme. Clint Eastwood interpreta Frankie, um treinador de boxe amargurado e introspectivo. Ele é um católico ressentido que vai à missa quase todos os dias e escreve com freqüência para sua filha, com a qual não tem mais contato, tentando uma reconciliação - o que é inútil, porque todas as cartas que escreve lhe são devolvidas. Seu melhor, quer dizer, único amigo é o ex-lutador Eddie Scrap, que perdeu o olho direito em sua 109ª luta e hoje é faxineiro no ginásio de Frankie. Um belo dia, aparece na história a simpática e insistente Maggie, que fica no pé de Frankie para que este a treine. Como todo machão que se preze, ele não quer treinar mulheres. E não apenas isso, Maggie já passou dos trinta, ou seja, não tem mais idade para iniciar uma carreira como boxeadora. Como água mole em pedra dura blá blá blá blá, Maggie consegue, depois de muito pentelhar, que Frankie aceite treiná-la.

Como estamos no cinema e diante de uma pequena fábula do apogeu e queda do sonho americano, Maggie se revela uma baita lutadora, que precisava apenas de um bom treinador para despontar. E assim vai vencendo adversárias com enorme facilidade. Nada diferente da meteórica ascensão de Rocky Balboa, o personagem de Sylvester Stallone, que sai do completo anonimato para disputar o título mundial.

O primeiro filme da saga Rocky foi realizado em 1976 e ganhou, inclusive, o Oscar de melhor filme naquele ano. E curiosamente, é uma saga tipicamente americana de alguém que sai do nada e consegue alcançar o triunfo, apesar de todas as adversidades. É o sonho americano que precisava se manter vivo no meio da crise pela qual os Estados Unidos passavam na época. Aqui, há um movimento inverso: em sua parte final, a história de Menina de Ouro muda, bruscamente, seu rumo, e o filme se torna uma tragédia moderna, diria uma tragédia americana. Mas pelo seu roteiro fraco, o filme derrapa feio e quase vira um belo dramalhão.

Pra começo de conversa, o roteiro é linear, com diálogos bobos e observações desnecessárias, além da "dica" que dá sobre o final do filme (como já aconteceu no também superestimado Sobre Meninos e Lobos). Quem for mais esperto, vai descobrir fácil o andamento da história. E os clichês então, nem se fala. Scrap vai lutar sua 110ª luta e vai vencer, Maggie é garçonete que vai ralar e lavar muito prato e comer resto de comida dos clientes porque é mais pobre ainda que um professor de escola pública aposentado e Frankie é o macho man de coração mole.

Isso é problema? Não! O problema é que a personalidade dos personagens fica exatamente aí: nos clichês!!! Estes clichês criam uma forte identificação dos espectadores com os personagens, mas fica claramente faltando algo mais! É um filme pragmático em excesso, não dá espaços para ir mais a fundo nos dramas pessoais de Frankie, Maggie e Scrap. O melhor exemplo da história é a família de Maggie. A moça começa a ganhar um dinheirinho com suas lutas, e tenta ajudar sua família, a mãe, sua irmã, seu irmão. Todos nós somos surpreendidos no que é, na verdade, o grande momento do filme: a reação da mãe de Maggie ao receber esta ajuda da filha.

Daí é que surge o conflito, elemento completamente ausente no restante da película. A contradição, o paradoxal, as questões: devemos julgar uma pessoa pelos seus familiares? O que fez Maggie tão diferente de seus parentes? Por que as pessoas preferem muitas vezes viver na merda do que se realizarem? Por que muita gente prefere se afundar na mediocridade simplesmente por não aceitar o amor de outra pessoa?

E então Menina de Ouro comete um erro capital: a família de Maggie é excluída da história. Putz! Que coisa. Ao reaparecer em outro momento, a relação familiar recai para a mesquinharia costumaz dos dramalhões óbvios. Que pena!!! Aí o filme volta a ser previsível, pragmático, óbvio... e maniqueísta. Na hora, só pensei: cacetada!

Mas vamos fazer justiça, a força do filme está em seu elenco: e há algo de excepcional sim, é a interpretação de Hilary Swank. Ela carrega metade do filme nas costas, porque seu personagem realmente conquista o espectador pela sua ternura, simpatia. Eastwood se mostra um ator amadurecido e Morgan Freeman é a competência de sempre. Além disso, o filme tem lá seus méritos: é realizado de forma correta, a montagem é bem feita, especialmente nas lutas de boxe, há ainda a bela fotografia da seqüência final (onde há uma pequena surpresa, que justifica a às vezes aborrecida narração em off do personagem de Morgan Freeman).

Com ótimas atuações, personagens principais "bonzinhos", conflitos e situações simplistas, Menina de Ouro realmente fisga o público. Mas falta reflexão, falta força, falta a dúvida, falta profundidade, tanto nas relações humanas, vistas de forma primária, quanto na personalidade de cada um dos personagens do filme, carregados de estereótipos. O filme merece ser visto, mas tem uma série de "senões" - e, definitivamente, não me considero um idiota por apontá-los.

 

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Ficha técnica
EUA, 2004. Direção de Clint Eastwood. Com Clint Eastwood, Hilary Swank, Morgan Freeman, Jay Baruchel, Mike Colter, Lucia Rijker, Brian F. O'Byrne, Anthony Mackie, Margo Martindale. Cor, 132 minutos.
Site imdb
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