| Tá
todo mundo louco. Oba! Tá todo mundo louco. Oba!!! Ou então
o maluco sou eu. Porque eu não vi nada, nada de excepcional
em Menina de Ouro, o mais recente queridinho da crítica
e que vem emocionando a todo mundo que o assiste - todo mundo menos
eu.
Todos
os críticos do planeta (ou 98,75% deles) já classificaram
o filme como "um clássico", "uma obra-prima",
o supra-sumo, the real thing. Os cinéfilos saem da sala de
projeção às lágrimas. Um colunista
sabichão da Folha escreveu que "só
os idiotas conseguem se recobrar em menos de uma semana do choque
aplicado por Eastwood". Então, sou uma besta quadrada,
o protótipo perfeito do imbecil. Saí do cinema como
entrei, olhando pro lado pra me dirigir ao ponto de ônibus
como faço normalmente.
Mas
vamos ao filme. Clint Eastwood interpreta Frankie, um treinador
de boxe amargurado e introspectivo. Ele é um católico
ressentido que vai à missa quase todos os dias e escreve
com freqüência para sua filha, com a qual não
tem mais contato, tentando uma reconciliação - o que
é inútil, porque todas as cartas que escreve lhe são
devolvidas. Seu melhor, quer dizer, único amigo é
o ex-lutador Eddie Scrap, que perdeu o olho direito em sua 109ª
luta e hoje é faxineiro no ginásio de Frankie. Um
belo dia, aparece na história a simpática e insistente
Maggie, que fica no pé de Frankie para que este a treine.
Como todo machão que se preze, ele não quer treinar
mulheres. E não apenas isso, Maggie já passou dos
trinta, ou seja, não tem mais idade para iniciar uma carreira
como boxeadora. Como água mole em pedra dura blá blá
blá blá, Maggie consegue, depois de muito pentelhar,
que Frankie aceite treiná-la.
Como
estamos no cinema e diante de uma pequena fábula do apogeu
e queda do sonho americano, Maggie se revela uma baita lutadora,
que precisava apenas de um bom treinador para despontar. E assim
vai vencendo adversárias com enorme facilidade. Nada diferente
da meteórica ascensão de Rocky Balboa, o personagem
de Sylvester Stallone, que sai do completo anonimato para disputar
o título mundial.
O primeiro
filme da saga Rocky foi realizado em 1976 e ganhou, inclusive,
o Oscar de melhor filme naquele ano. E curiosamente, é uma
saga tipicamente americana de alguém que sai do nada e consegue
alcançar o triunfo, apesar de todas as adversidades. É
o sonho americano que precisava se manter vivo no meio da crise
pela qual os Estados Unidos passavam na época. Aqui, há
um movimento inverso: em sua parte final, a história de Menina
de Ouro muda, bruscamente, seu rumo, e o filme se torna uma
tragédia moderna, diria uma tragédia americana. Mas
pelo seu roteiro fraco, o filme derrapa feio e quase vira um belo
dramalhão.
Pra
começo de conversa, o roteiro é linear, com diálogos
bobos e observações desnecessárias, além
da "dica" que dá sobre o final do filme (como já
aconteceu no também superestimado Sobre Meninos e Lobos).
Quem for mais esperto, vai descobrir fácil o andamento da
história. E os clichês então, nem se fala. Scrap
vai lutar sua 110ª luta e vai vencer, Maggie é garçonete
que vai ralar e lavar muito prato e comer resto de comida dos clientes
porque é mais pobre ainda que um professor de escola pública
aposentado e Frankie é o macho man de coração
mole.
Isso
é problema? Não! O problema é que a personalidade
dos personagens fica exatamente aí: nos clichês!!!
Estes clichês criam uma forte identificação
dos espectadores com os personagens, mas fica claramente faltando
algo mais! É um filme pragmático em excesso, não
dá espaços para ir mais a fundo nos dramas pessoais
de Frankie, Maggie e Scrap. O melhor exemplo da história
é a família de Maggie. A moça começa
a ganhar um dinheirinho com suas lutas, e tenta ajudar sua família,
a mãe, sua irmã, seu irmão. Todos nós
somos surpreendidos no que é, na verdade, o grande momento
do filme: a reação da mãe de Maggie ao receber
esta ajuda da filha.
Daí
é que surge o conflito, elemento completamente ausente no
restante da película. A contradição, o paradoxal,
as questões: devemos julgar uma pessoa pelos seus familiares?
O que fez Maggie tão diferente de seus parentes? Por que
as pessoas preferem muitas vezes viver na merda do que se realizarem?
Por que muita gente prefere se afundar na mediocridade simplesmente
por não aceitar o amor de outra pessoa?
E então
Menina de Ouro comete um erro capital: a família
de Maggie é excluída da história. Putz! Que
coisa. Ao reaparecer em outro momento, a relação familiar
recai para a mesquinharia costumaz dos dramalhões óbvios.
Que pena!!! Aí o filme volta a ser previsível, pragmático,
óbvio... e maniqueísta. Na hora, só pensei:
cacetada!
Mas
vamos fazer justiça, a força do filme está
em seu elenco: e há algo de excepcional sim, é a interpretação
de Hilary Swank. Ela carrega metade do filme nas costas, porque
seu personagem realmente conquista o espectador pela sua ternura,
simpatia. Eastwood se mostra um ator amadurecido e Morgan Freeman
é a competência de sempre. Além disso, o filme
tem lá seus méritos: é realizado de forma correta,
a montagem é bem feita, especialmente nas lutas de boxe,
há ainda a bela fotografia da seqüência final
(onde há uma pequena surpresa, que justifica a às
vezes aborrecida narração em off do personagem de
Morgan Freeman).
Com
ótimas atuações, personagens principais "bonzinhos",
conflitos e situações simplistas, Menina de Ouro
realmente fisga o público. Mas falta reflexão, falta
força, falta a dúvida, falta profundidade, tanto nas
relações humanas, vistas de forma primária,
quanto na personalidade de cada um dos personagens do filme, carregados
de estereótipos. O filme merece ser visto, mas tem uma série
de "senões" - e, definitivamente, não me
considero um idiota por apontá-los.
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