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Beagá, 10 de outubro de 2005 d.C.

 
Vlado, Trinta Anos Depois
 
Herzog e o povo do pós-64
 

Detesto falar em nome da categoria, mas como desta vez é por uma causa maior, abre-se uma exceção. Vlado: Trinta Anos Depois, o documentário de João Batista de Andrade sobre a prisão, tortura e morte do jornalista Vladimir Herzog, em 25 de outubro de 1975, é um das peças mais poderosas deste ano, dentro e fora do cinema.

Não é um filme agradável, como a história do Caso Herzog não é de fácil digestão. Tem como linha-guia o testemunho de amigos, conhecidos e familiares do jornalista, pontuados por intervenções do cineasta sobre cada tópico. É um trabalho de reconstrução impecável, e mostra bem o significado da morte de Herzog e o perfil do militante comunista típico daquela época, muito distante do fanático de camisa vermelha armado disposto a derrubar o regime. O único ponto pelo qual o cineasta passa batido é o enterro de Herzog, que é citado por cima pouco antes do final do filme.

Vlado, como Herzog era conhecido entre amigos, era um iugoslavo naturalizado brasileiro, foi professor da USP e teatrólogo. Trabalhou como jornalista no Brasil até o golpe de estado de 1964, quando mudou-se com a esposa, Clarice, e os filhos Ivo e André para Londres. Lá, Herzog arrumou um emprego na BBC de Londres, onde ficou até meados de 1968. A época da volta do jornalista ao Brasil coincide com a edição, pelo governo militar, do AI-5 (Ato Institucional nº 5), que recrudesceu a censura à imprensa no país e deu plenos poderes ao então presidente Artur da Costa e Silva. Foi nesse contexto que Herzog morreu. Na versão oficial do governo, foi suicídio. A materialização da imagem pela qual Herzog deixou este plano e entrou para a História é essa.

O filme contextualiza a queda-de-braço dentro do governo da época - dividido entre o grupo do presidente-general Ernesto Geisel, que pregava a abertura política sob risco de perda de poder para a sociedade civil, e a chamada linha-dura, militares que defendiam o endurecimento do regime - e de que modo a morte de Herzog nas dependências do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa

Interna) foi conseqüência disso. Não é preciso ser historiador pra deduzir que a sociedade pagava pela bateção de cabeça dos dois, mas naquele momento essa divisão não era tão evidente, como os depoimentos do filme mostram.

Não sou especialista em cinema, mas o estilo de filmagem me parece intencionalmente incômodo. A cada fala, a câmera pega ângulos fechados pouco comuns, geralmente em closes, e mostra espíritos destruídos. É claustrofóbico ver pessoas que carregam na cara as marcas da ditadura contando como foram torturadas e, uma vez mais, reconstituírem os últimos passos de Herzog, da chegada no DOI ao murro que pôs fim à existência dele. A seqüência final do filme é tão forte quanto é sutil, e isso porque eu nem sou fã de João Bosco. A serenidade de gente como Rodolfo Konder - que demonstra um bom humor admirável após tudo o que aconteceu - e o olhar poético de amigos de Herzog que também estavam no DOI, como George Duque Estrada, contrastam com a aspereza dos depoimentos sobre como o regime de exceção seqüestrava e matava sem dificuldade alguma.

Ironicamente, a primeira parte do documentário mostra que pouca gente hoje em dia tem idéia do que foram os anos de chumbo. Um dos únicos trechos engraçados do filme é quando um senhor de terno é abordado na rua e diz não saber o que foi a ditadura, pois não era nascido naquele tempo, mas - diz o sujeito - “adoraria que voltasse”. Sobre Herzog, então, o desconhecimento geral é próximo da plenitude. Ao mostrar isso, o filme deixa de lado a crítica aos militares e volta o foco à memória do país, só para mostrar que ela ainda é curta (alguém aí falou nas eleições de 2004 e a volta de gente como Jader Barbalho e ACM...?). O ataque ao governo volta no episódio das supostas fotos de Herzog, mas isso também citado en passant.

Para quem não é experimentado na história do Caso Herzog e da ditadura no Brasil, o filme pode ser confuso. Quem acostumou-se ao gerador de caracteres da televisão e espera por isso em Vlado vai ter problemas, porque só o que aparece são os nomes de cada depoente. Por analogia, é possível identificar pessoas como Ivo Herzog e Henry Sobel, mas receio que personagens como José Mindlin e Fernando Jordão sejam desconhecidos aos estudantes de jornalismo, uma parte do público-alvo do filme. Até mesmo a revelação de que Herzog encontrou-se em uma ocasião com Marighella pode passar batida.

Não sei se os estudantes de jornalismo vão sacar qual é a de Vlado. Na saída da sessão, o garoto que sentou ao meu lado disse à namorada que o filme é uma merda e que “nada aconteceu” (entendam como quiserem). Não vou entrar no mérito de ele ter passado a maior parte do tempo bolinando a garota e de os dois terem bem lá seus 18-19 anos, mas eu entendo o porquê do comentário dele. A geração pós-1964 é despolitizada, alienada. As referências deles de personalidades são gente da MTV ou jogadores milionários de futebol. A idéia dos adolescentes de hoje de subversão é algo próximo de Jackass. Nesse contexto, quem é Herzog para esse pessoal e o que significa a morte dele, que completa 30 anos no próximo 25 de outubro?

Deve ser complexo para eles entenderem que Vlado não é um filme de aventura sobre heróis interpretados por astros do rap com um repertório de frases de efeito, mas sim uma obra que retrata gente comum unida por um episódio trágico, com pouco ou nenhum glamour. Pois o que mais (me) perturba na morte de Herzog é isso: ele não era alguém de destaque no Partido Comunista Brasileiro do qual fazia parte, mas sim o militante-padrão que acreditava em tempos menos duros. Quando gente assim se vai por defender suas idéias, é difícil não ficar perplexo.
 

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Ficha técnica
Brasil, 2005. Direção de João Batista de Andrade. Cor, 82 minutos.