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Sexta-feira, Março 10, 2006



Mulheres do Brasil



Brasil, 2006. Direção de Malu de Martino. Com Camila Pitanga, Deborah Evelyn, Carla Daniel, Bete Coelho, Roberta Rodrigues, Dira Paes, Luana Carvalho, Luciano Szafir. Cor, 113 minutos.

Site oficial: http://www.ehfilmes.com.br/mulheres
Site IMDB: http://www.imdb.com/title/tt0446407/


O novo grande lançamento do cinema nacional está chegando às telas. É o longa-metragem Mulheres do Brasil, produzido pela mesma empresa que realizou Cidade de Deus e Central do Brasil. O filme, que vai ocupar mais de 100(!) salas de cinema em todo o país, está recebendo bastante espaço e destaque na mídia. É o maior lançamento do cinema nacional nos últimos tempos. Até uma revista foi lançada pela Editora Abril, em comemoração ao Dia Internacional da Mulher e também para promover o filme. Segundo o release, o filme "conta a história de cinco mulheres que amam, trabalham e sonham em cinco cidades brasileiras". Dá até um frio na espinha lendo.

Mulheres do Brasil se constitui de cinco histórias, cada uma passada em um lugar do país - e cada uma das histórias pior que a outra. Na verdade, este filme é um exemplo interessante de como tudo na vida pode ficar ainda pior.

Na primeira história, Camila Pitanga é uma menina do interior da Bahia que recebe uma educação privilegiada por parte de sua família, que não mede esforços para que ela tenha um futuro promissor. Entretanto, sabe-se lá o porquê, quando chega à idade adulta a garota se torna uma garota de programa, sendo sustentada por um político na capital baiana. A dubiedade do caráter da personagem é apresentada sem nenhuma explicação. Mas acho que pedir alguma explicação é demais para um roteiro tão estúpido quanto o deste filme.

A história em seguida é completamente idiota. Trata-se de uma estudante de turismo que vai fazer um trabalho de faculdade numa praia da cidade de Maceió e conhece um casal formado por um pescador e uma rendeira. Daí a menina começa a refletir sobre a vida inútil que leva como pequena burguesa e resolve "se descobrir" - ou qualquer dessas viadagens. São constrangedores os diálogos entre a estudante (Luana Carvalho, numa infeliz estréia cinematográfica) e a rendeira (pobre Dira Paes), as conversas são de fazer qualquer ser humano sensato corar de vergonha. Em determinado momento da conversa entre as duas personagens, Dira Paes se atira na água de roupa e tudo, sem nenhum motivo - lá em Alagoas faz muito calor e as pessoas de repente ficam loucas, se atiram na água sem mais nem menos, deve ser essa a explicação. Então a rendeira dá uma lição de vida à menina burguesa (e a todos nós, o público, também: evite filmes nacionais) ao bradar: "solte suas amarras!" É tão bizarro que chega a ser cômico. O elenco está tão perdido que a impressão que se tem é que está rolando um clima entre as duas, a estudante e a rendeira, e que vai haver um beijo lésbico a qualquer momento, sendo que isso passa longe da intenção da história. Entretanto, o mais impressionante nisso tudo é saber que duas escritoras se juntaram pra escrever essa narrativa tão patética.

Depois vem a história menos horrível das cinco, mas nem por isso ela deixa de ser ruim. É sobre uma porta-bandeira de escola de samba do Rio de Janeiro que se prepara para desfilar no carnaval. Trata-se de um verdadeiro e previsível dramalhão. Ao menos, não insulta muito a inteligência. A seguir, nossas atenções voltam-se para Curitiba. A quarta história tem um argumento curioso: são duas amigas que trabalham como garçonetes e vivem num bairro pobre da cidade. Uma delas se apaixona pelo locutor de um programa de rádio. O desfecho é simplesmente terrível. E no último segmento do filme, ambientado na cidade de São Paulo, uma história completamente absurda mostra a que nível uma mulher decadente de 40 e poucos anos recém-separada do marido pode se rebaixar. É simplesmente deprimente.

Pra começar, o roteiro (?) é pavoroso. As histórias não se articulam entre si, não têm propósito algum, não têm conflito ou as resoluções são as mais esdrúxulas possíveis. As personagens são mal construídas, completamente planas, chapadas, sem a menor profundidade - podem ser reduzidas a mulheres totalmente descerebradas, cujas ações se dão por impulso e não requerem explicação ou contextualização.

Para piorar ainda mais, das cinco histórias três são intercaladas por depoimentos que serviriam para ilustrá-las, para dar um tom documental à narrativa - são rendeiras, porta-bandeiras e prostitutas reais, que contam suas experiências. Mas, pra quê? Com qual objetivo? O tom "verdade" da primeira história é a exibição gratuita de cenas de procissões religiosas em Bom Jesus da Lapa. Na história paulistana, a última (pra fechar o caixão), apenas ouvimos relatos de mulheres em off que, assim como a personagem principal, se separaram do marido depois dos 40 anos. Não preciso dizer que o resultado é um verdadeiro Frankstein narrativo, uma monstruosidade dramática. Os depoimentos simplesmente não se mesclam com as histórias, soam falsos, forçados, sem o menor cabimento, e quebram o ritmo da narrativa justamente por serem tão banais, estereotipados, tão frívolos quanto os personagens do filme. E esta obra ainda se propõe a retratar as mulheres do Brasil...

As atuações variam entre ruins e péssimas. Ver uma boa atriz como Dira Paes fazer papel de boba é algo indescritível. Deborah Evelyn e Carla Daniel ainda se esforçam no sotaque e fazem duas coritibocas aceitáveis, mas o final bizarro da história joga tudo por terra. Apenas Luciano Szafir parece adequado no papel de reprodutor/homem objeto, que aliás lhe cai muito bem.

E tem mais. Erros crassos de enquadramento em alguns planos, utilização equivocada da trilha sonora, tentativa absurda de juntar todas as cinco histórias no último episódio através de uma passagem pra lá de tosca, digna de teatrinho de colégio: é tão fake e horroroso que dá pra assustar.

Provavelmente, Prostit... Ops, Mulheres do Brasil vai ser um enorme sucesso de bilheteria graças à publicidade que está recebendo. Mostrando e glorificando mulheres estúpidas e vulgares, tolas e fúteis, esquizofrênicas e neuróticas, este filme tem tudo para conquistar o público. Em tempos obscuros como os nossos, quando intelectuais elogiam o funk de Deize Tigrona, nada mais me espanta. De qualquer maneira, a verdade é que tudo nesse filme é ridículo e execrável. Simplesmente abaixo da crítica.

Avaliação:



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