ABACAXI ATÔMICO

Harry Potter e a Ordem da Fênix

Katchiannya
15/07/2007

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Confesso que quando escalaram David Yates para ser o diretor de Harry Potter e a Ordem da Fênix fiquei bastante receosa. Afinal, Yates era um ilustre desconhecido na época, vindo da televisão britânica, sem nenhum trabalho amplamente acessível para ter alguma base de comparação. Simplesmente não sabia o que esperar.

E, em um ano cujas grandes produções lançadas só podem ser classificadas como decepcionantes, pelo menos no caso de Piratas do Caribe – No Fim do Mundo e Homem-Aranha 3, temia que, apesar do ótimo trailer, Harry Potter e a Ordem da Fênix enveredasse pelo mesmo caminho.

Assim, foi sem grandes expectativas que fui assistir ao filme. E, felizmente, não tenho vocação para vidente. As minhas pessimistas previsões não poderiam estar mais equivocadas.

Embora em termos de soluções cinematográficas e construção de imagens, O Prisioneiro de Azkaban ainda continue insuperável, A Ordem da Fênix consegue se sair de maneira excelente nesses quesitos.

Algumas seqüências são memoráveis. O vôo dos membros da Ordem sobre o Tâmisa, o saguão de entrada do Ministério Bruxo, a ida com os trestálios para Londres, a fuga em massa de Azkaban, os patronos da Armada de Dumbledore. Mesmo descrevendo nos mínimos detalhes não seria suficiente para passar o efeito que cada uma dessas cenas suscita no espectador.

Entretanto, duas seqüências merecem destaque. A seqüência de abertura do filme, com o ataque dos dementadores - que mudaram de visual, mas continuam tão ou mais assustadores que no terceiro filme - e a cena da batalha entre a Ordem da Fênix e os Comensais da Morte, em especial entre seus líderes, Dumbledore (Michael Gambon) e Voldemort (Ralph Fiennes).

A seqüência de abertura parece tirada de um filme de terror. Tudo se inicia em uma aparente tranqüilidade, em um parquinho de um subúrbio londrino com crianças sendo buscadas pelas mães para irem para casa. Então Harry (Daniel Radcliffe) é cercado por valentões liderados por seu primo Dudley. Uma ameaça mundana que é substituída por outra mais mítica e sobrenatural cuja chegada é anunciada por uma terrível tempestade e um perigo aparentemente invisível que persegue os dois primos sem que o espectador o veja até que, tanto para ele quanto para os personagens, seja tarde demais. Talvez seja uma das melhores seqüências iniciais de toda a série.

Neste ponto, vale abrir um pequeno parêntesis, e dizer que Yates aprendeu bem a lição que Cuarón deixou no terceiro filme em imprimir elementos de suspense e terror na história, equilibrando com primazia as insinuações e o psicológico com imagens mais diretas.

Alias, Yates consegue manter na série, e até mesmo melhorar, os acertos de seus predecessores.

Como mencionei, merece destaque especial também a cena da grande batalha final entre a Ordem e os Comensais da Morte. Quando li a cena no livro, ela não me pareceu tão dinâmica quando como é vista nas telas. Imaginava uma saraivada de luzes sendo arremessadas de um lado para o outro. No filme ela se torna muito mais que isso, a ponto de encher os olhos e deixar a respiração suspensa, especialmente no embate entre Dumbledore e Voldemort.

Outro grande acerto do filme está no roteiro. Acreditem se quiserem, as duas horas e dezoito minutos de filme são mais que suficientes para condensar as 702 páginas (na versão brasileira) do livro.

Embora Steve Kloves tenha feito um bom trabalho nos filmes anteriores, ele deixou, por exemplo, algumas pontas soltas em O Prisioneiro de Azkaban, que não chegam a prejudicar o filme, mas não deixam de ser um defeito. E em O Cálice de Fogo ele consegue condensar bem o livro, mas o espectador mal consegue respirar pelo apanhado de acontecimentos que se sucedem ininterruptamente.

O novo roteirista, Michael Goldenberg, consegue se desviar desses dois problemas. O roteiro é enxuto, bem amarrado, faz uma adaptação boa do livro, encontrando soluções adequadas para explicar passagens que são mais extensas na versão literária, e consegue também construir a história gradativamente. Percebe-se o desenvolvimento dos acontecimentos sem se sentir perdido em meio a um redemoinho.

Mas esses não são os únicos méritos de Goldenberg. Ele não apenas faz uma boa adaptação, mas potencializa e melhora alguns aspectos do livro, como, por exemplo, a tirania de Dolores Umbridge em Hogwarts, que se torna mais palpável e opressora que na versão original de J. K. Rowling.

A aguardada cena do primeiro beijo entre Harry Potter e Cho Chang (Katie Leung), ganhou aqui um ar poético e doce, sem ser piegas.

Talvez apenas os fãs mais radicais possam reclamar da ausência inevitável de algumas partes do livro, como, por exemplo, o quadribol. Goldenberg optou por dar enfoque nos aspectos diretamente relacionados à guerra, ao conflito político entre Dumbledore e o Ministério, personificado na figura de Umbridge, e a rebelião silenciosa e, ao mesmo tempo, ousada, dos alunos, através da criação da Armada de Dumbledore.

Como de praxe, novos nomes foram acrescidos ao elenco. Entre os novatos mais jovens, Evanna Lynch caracterizou com perfeição a avoada Luna Lovegood; por outro lado Natalia Tena não teve espaço para desenvolver melhor a carismática Tonks. Já entre os veteranos, Imelda Staunton está odiosamente perfeita como Dolores Umbridge. Toda a falsidade e jeito maquiavélico de ser da Alta Inquisidora de Hogwarts escondido sob um verniz de boas intenções emanam da atriz. Outra que é destaque, apesar de aparecer muitíssimo pouco, é Helena Bonham Carter, que conseguiu encarnar toda a insanidade de Bellatrix Lestrange.

Entretanto, por incrível que pareça, uma das grandes surpresas entre os atores é Daniel Radcliffe. Embora ele sempre tenha se esforçado para melhorar a cada filme, algumas vezes deixava a desejar, como por exemplo, na cena de O Prisioneiro de Azkaban, em que descobre que Sirius (Gary Oldman) supostamente traiu os pais de Potter. Contudo, neste filme percebe-se um salto qualitativo na atuação do garoto, especialmente na cena final da seqüência do Ministério. Parece que uma temporada no teatro fez realmente muito bem a ele.

Enfim, Harry Potter e a Ordem da Fênix não é apenas um excelente filme, capaz de honrar tanto seus melhores predecessores quanto o livro que o originou, como também é uma promessa de que o melhor pode estar por vir, já que David Yates assinou contrato para o sexto filme.  Só podemos dizer que nada mal para um ilustre desconhecido.

Avaliação: 1.gif

Ficha técnica:

Harry Potter and the Order of the Phoenix. Inglaterra/EUA, 2007. Direção de David Yates. Com Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Ralph Fiennes, Michael Gambon, Imelda Staunton, Alan Rickman, Emma Thompson, Gary Oldman, Maggie Smith, Helena Bonham Carter, Natalia Tena, Evanna Lynch, Jason Isaacs, Katie Leung. Cor, 138 min.

Site oficial: http://www.harrypotterorderofthephoenix.com/
Site oficial (Brasil): http://harrypotter.br.warnerbros.com/site/
Site IMDB: http://www.imdb.com/title/tt0373889/



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