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ABACAXI ATÔMICO

Cisne Negro

06/02/2011

Já diria Calvin (não o filósofo, mas o garotinho de cabelo louro espetado das tirinhas do Bill Watterson), em toda a sabedoria de seus seis anos de neve, que para evitar frustrações é importante manter baixas as expectativas a respeito de basicamente todas as coisas.

A lógica é bastante simples. A execução, porém, nem tanto.

Ao ver toda comoção causada pelo novo longa de Darren Aronofsky decidi, pelo bem da minha experiência cinematográfica, não assistir a trailers, não ler resenhas e, o mais importante, evitar veementemente contato com opinião de Críticos Profissionais ™ que - danadinhos! - fizeram download do longa e testamentaram seus respectivos pareceres a respeito (diga-se de passagem, nem sou uma coisa nem fiz a outra - só pra esclarecer).

Ainda assim, não consegui manter a fleuma com tanta eficácia quanto Hannibal o faria. Uma expectativazinha marota sempre acaba ficando de resquício aqui e ali, fermentada por um Globo de Ouro acolá. A boa notícia é que com Cisne Negro isso não fez a menor diferença.

A experiência de assistir a esse suspense psicológico foi para mim algo que beira o indescritível - por isso, caso eu falhe miseravelmente na tarefa de, ora bolas, descrever e avaliar o filme, peço aos leitores que me perdoem.

Com roteiro de Mark Heyman, John J. McLaughlin e Andres Heinz, Cisne Negro acompanha Nina Sayers (Natalie Portaman, no papel que lhe rendeu o Golden Globe de Melhor Atriz de Drama e a coloca na dianteira da disputa do Oscar), uma dedicada bailarina que tem oportunidade de protagonizar uma nova versão de “O Lago dos Cisnes” no cobiçado e ambíguo papel da Rainha dos Cisnes.

Suspense psicológico, psicologia, psique e - porque não dizer - psicose são justamente onde residem os cernes da questão onde todo o argumento do filme se sustenta. Desde a relação claustrofóbica da jovem com sua mãe superprotetora e por vezes cruel (vivida por Barbara Hershey com um toque do que os nosologistas do início século passado diriam ser uma relação capaz de produzir um Norman Bates de toutou) até a absoluta adoração por aquela que viria a substituir – a primeira bailarina Beth Macintyre (Winona Ryder) – Nina se porta de maneira passiva, reprimida e infantilizada.

Insegura e facilmente intimidada pelas demais bailarinas da companhia, a jovem começa a sentir a pressão dos papéis que está prestes a desempenhar: com seus modos delicados e uma técnica impecável ela consegue, sem esforço, imprimir verdade ao papel do casto Cisne Branco; porém, sua busca de perfeição de movimentos esbarra numa mecanicidade, falta de paixão e de sensualidade quase crônicas que a impedem de ser um Cisne Negro crível. Essa dificuldade de entrar em contato com a viscelaralidade do duplo sombrio da branca Princesa Odette materializa-se na frustração do diretor da companhia e objeto de seus desejo Thomas Leroy (o intenso Vincent Cassel, em personagem com sobrenome cuja grafia se aproxima significativamente do francês “le roi”, “o rei”), que passa a cobrar, com razão, que a jovem ouse, sinta e transmita a energia criadora da sexualidade conferindo vida ao personagem.

Nesse contexto surge a novata Lily (Mila Kunis) – bailarina que, ainda que peque em técnica, com sua desenvoltura e carisma é a própria encarnação das qualidades do Cisne Negro, posto que envolve a todos (inclusive “o rei”-príncipe-diretor Leroy) numa aura magnética e sedutora. Para a torturada Nina está estabelecido o pano de fundo para que sua mente fragilizada aos poucos seja tomada por um emergente lado sombrio.

Essa metamorfose da jovem contida e pueril em alguém ousado, sensual e até temerário é orquestrada por Aronofsky como um espetáculo de  ilusionismo, um jogo de fumaça e espelhos onde o real e o delírio se confundem, criando um efeito de sonho para quem assiste. A atmosfera construída orbita ao redor da protagonista ao som da trilha sonora de Clint Mansell, que propositadamente ecoa a obra de Tchaikovsky ora de maneira vertiginosa e distorcida, ora delicada e seca, pontuada a todo momento por alucinações auditivas – risadas, sussurros e sons de espelhos se partindo – que refletem a personalidade cindida de Nina. O resultado é um mundo das artes perturbador e obsessivo, repleto da ambiguidade e paranoia que envolvem tanto a personagem quanto os espectadores na medida em que a trama se desenrola.

A escolha de retratar a narrativa com câmeras na mão e closes nada ortodoxos aproxima o espectador da protagonista, ampliando a vivência da dualidade da mente de Nina como se essa saltasse da projeção e se instasse na poltrona do lado de quem vê. Inveja, vaidade, luxúria e ira transitam por todo o filme, descarnando a alma humana no até o mais íntimo de seus anseios. E é aí que o filme se torna palpável para o espectador, mesmo que cheio de cenas delirantes, impossíveis e bem específicas que representem o sentir distorcido da protagonista: sua ambição, seu desejo e sua loucura conferem um tom factível à trama.

O desfecho do filme, como não poderia deixar de ser, é um destino plausível à vivência brutal da vida de cisne branco e seu duplo sem, contudo, perder o ar de suspense até o último segundo de projeção. Porque não importa o quanto se lute para equilibrar a balança e obter respostas, no fim ela será, invariavelmente, uma nova pergunta. (Processem o Freud, que com toda essa conversa deve estar com cara de “Eu sabia” lá no céu dos caras geniais).

Yan e Yang, bem e mal, luz e sombra, loucura e sanidade.

Cisne Negro é uma obra brilhante e uma experiência impactante, aterradora. E, em se tratando da história de uma artista que busca justamente veracidade e perfeição para construir emoções no palco – vejam a ironia – é sufocantemente emocionante.

Avaliação:

Ficha Técnica:

Black Swan. EUA, 2010. Direção: Darren Aronofsky. Com: Natalie Portaman, Vincent Cassel, Mila Kunis, Barbara Hershey, Winona Ryder. Cor, 108 min.

Página na Web: http://www.foxsearchlight.com/blackswan/ (em inglês)



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