ABACAXI ATÔMICO

As Viagens de Gulliver

12/01/2011

Há tempos Hollywood tem transitado com frequência no terreno seguro das adaptações literárias, e a matemática que dessa empreitada é bem óbvia: feijão com arroz e batata frita tem maior número de fãs que um pires de sashimi de polvo. Nenhum filme blockbuster com seu orçamento estratosférico quer amargar o limbo da impopularidade por conta de um roteiro surreal de algum autor com ideias pouco convencionais – que eventualmente pode surpreender. Mas, convenhamos, assumir o risco do “eventualmente” é para poucos e muito bons.

Por isso, sem surpresa, mais uma vez foram beber na fonte literária dos clássicos, encontrando na lagoa de Jonathan Swift a água inspiradora para as peripécias já (demasiado) conhecidas de Jack Black em sua mise-em-scène habitual.

Nessa versão século XXI, Gulliver é o clichê do anti-galã com síndrome de Peter Pan que não cresce na vida pessoal ou profissional porque não arrisca sair do terreno seguro do jardim de infância. Vivendo de transitar pelos corredores do jornal em que trabalha no cargo de chefe da expedição (uma espécie de ASPONE da entrega de correspondência interna) e amar platonicamente uma mulher a cinco anos, ele vê seu mundo cair quando um recém-chegado com cara de yuppie toma seu cargo em apenas um dia de trabalho ‘sério’. Esse é o gancho para que, em consequência de uma série de meias mentiras e mal entendidos, ele vá parar no triângulo das bermudas para escrever uma matéria e acabe aportando na terra desconhecida de Lilliput.

Para alegria de sua autoestima de estatura sub-lilliputiana, ele descobre que em terra onde tudo se mede em centímetros, muitos metros a mais e uma falastronice incurável são o atalho para a glória – ainda que toda feita de fumaça e espelhos (puro truque, senhoras e senhores… Modo referências fabulescas ON. E OFF)

A estratégia do roteiro para amarrar uma história que na mente do século XVIII fazia sentido – porque havia ainda territórios inexplorados no mundo e as pessoas pendiam para um imaginário bastante colaborativo – é sutil, e não causa maiores espantos num filme com pressuposto de narrativa de fantasia.

De Star Wars a Avatar, espalham-se pelo filme de maneira divertida referências a um sem número de coisas que a turma nerd (o novo cool da moda, quem diria) ama de verdade, ou ama fingir odiar. Confesso ter me divertido brincando de localizar e reconhecer a procedência de cartazes e propagandas na réplica Lilliputiana da Times Square, conforme descrito por Gulliver para os crédulos seres vitorianos versão pocket. Nesse parte do fantástico mundo de Bobby-Gulliver, ele é o rei do mundo, o presidente fenomenal e… o Leonardo di Caprio – assista que vai fazer sentido, prometo.

Cinema pipoca, com tudo o que se tem direito. Em se relevando todo o clichê Jack Black (air guitar, dancinhas esquisitas, músicas inventadas e números musicais – não pergunte) ou, para alguns, justamente por isso, considere sua ida ao cinema um passeio legal na montanha russa – diversão sobe-e-desce, sem muitos loops, que pode até dar um friozinho na barriga. Mas não é a experiência de uma vida – não que alguém em sã consciência vá em busca disso num filme assim.

Espero…

Avaliação:

Ficha Técnica: Gulliver’s Travels, EUA 2010. Direção: Rob Letterman. Com Jack Black, Jason Segel, Emily Blunt, Amanda Peet, Billy Connoly. Cor, 85 min.

P.S: Resenha inspirada em muitos momentos de uma conversa com o Professor Xavier Cajabis. (principalmente na alegoria da montanh-russa, deveras divertida!)



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