ABACAXI ATÔMICO

Além da Vida

06/01/2011

“Um tsunami devastador arrasa uma pequena cidade litorânea na Indonésia, quase causando o afogamento de uma jornalista francesa e levando-a a um estado de quase morte. Nas ruas de Londres, um acidente faz com que um jovem menino tenha seu irmão gêmeo, que sempre foi seu conselheiro, arrancado de sua vida. E, do outro lado do mundo, em São Francisco, um homem se desconecta da realidade para abafar as vozes dos mortos.”

A morte afeta imensamente a vida.

Independente de crença – ou descrença – de todo modo qualquer ser humano caminha para os braços da misteriosa dama desde o dia em que nasce. Nada mais natural que questionamentos sobre a existência de um “depois da vida” permeie nosso imaginário quando em vez.

Por isso mesmo, muito já foi dito e feito sobre esse assunto, com maior ou menor competência, com ou sem apelo proselitista, em todas as mídias conhecidas. E aposto meus abacaxis que irá continuar a acontecer durante séculos e séculos, até o fim dos tempos – se este existir.

De início já posso dizer da ousadia que é um diretor se propor a tratar um tema que é em muitos aspectos traiçoeiro, principalmente sendo ‘pé no chão’ como Clint Eastwood – ainda que extremamente sensível na sutileza de suas abordagens - e já aclamado e reconhecido por seus filmes figura-cativa em prêmios da academia.

No terreno lodoso que é abordar a vida após a morte, é grande o risco de derrapar num tom de doutrinação, numa conversa autoajuda que beira a fantasia ou pior, optar pela escolha fácil de Humpty-Dumpty que, em cima do muro, não pende nem para a certeza, nem para a descrença – hábito que acho particularmente covarde, comum aos que preferem lavar as mãos a assumir um compromisso real com a narrativa.

Eastwood, entretanto, finca seu “pé no chão” na certeza da humanidade dos fatos, na verdade dos sentimentos de seus personagens, cada qual tocado pela morte de um modo distinto, pintando um quadro possível e que aproxima o espectador da história.

No roteiro de Peter Morgan (de ‘Frost/Nixon’ e ‘A rainha’), três histórias são tecidas em diferentes lugares do mundo, de pessoas afetadas pela morte de um modo que a maioria das pessoas não costuma experimentar e, como expectadores, transitamos junto dos personagens centrais dos três núcleos e sua vivência peculiar do além vida.

Ora estamos na Indonésia, ora na França, acompanhando os esforços da bem sucedida jornalista Marie Lelay (Cécile de France), para compreender sua experiência de quase morte num tsunami – uma sequência avassaladora logo no início do filme - que apontou seu olhar para um prisma completamente distinto do que está habituada.

No momento seguinte estamos em San Francisco, na reclusão voluntária de George Lonegan (sobrenome sugestivo do personagem de Matt Damon - lone é solitário em inglês -, em atuação tocante) que, em meio a audições de livros de Charles Dickens em noite insones, empreende uma tentativa de ter uma vida comum como um simples operário; no entanto, ele se vê confrontado com as vozes da morte a cada vez que toca outro ser humano.

E então somos levados a Londres para partilhar a busca incansável do jovem Marcus em contatar seu irmão gêmeo Jason, cuja a morte súbita em um acidente gerou também sua separação da mãe viciada em heroína, potencializando a força brutal da perda. Cabe um parêntese: os irmãos são vividos pelos novatos George e Frankie McLaren, e talvez interpretação do gêmeo sobrevivente (Marcus) dividida por eles seja a mais impactante do filme. A força da ligação real entre irmãos vindos de uma mesma célula, que acaba tangenciando a história como uma possibilidade de perda real é transmitida com uma veracidade dolorosa.

Esta escolha narrativa de intercalar as histórias e vivências de cada um dos personagens e o modo como elas convergem ao final nos permite perceber como a vida tem um modo muito peculiar de tecer enredos sem que percebamos, mas que nos levam invariavelmente a um ponto comum sobre o qual não temos controle. O caminho até lá, porém, tornará a jornada mais ou menos significativa, e é de nossa total responsabilidade.

Sim, trata-se de um filme sobre a vida após a morte, mas acaba por ser um filme delicado, humano, ousado e sensível que tem por foco a vida. Como diz um personagem do próprio filme “Uma vida que gira em torno da morte, não é vida de modo algum”.

Mais Clint Eastwood, impossível.

P.S.: Nesse exato momento, ouço em loop a trilha sonora delicada e minimalista deste filme de Clint Eastwood – composta pelo próprio, veja só! - e me pergunto como é que se escreve sobre um tema desses de modo imparcial. Por isso, de cara já me desculpo se vazar nas palavras alguma parcialidade no discurso. No fim sou uma pessoa legal, mas ainda uma pessoa…

Avaliação:

FICHA TÉCNICA: Além da Vida (Hereafter).EUA,2010. Direção: Clint Eastwood. Com Matt Damon, Cécile de France, George McLaren , Frankie McLaren, Bryce Dallas-Howard, Jay Mohr. Cor, 129 min.



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